Entendendo os índices dos reservatórios de água de SP

Imagine que o 'volume útil' é a meta de poupança de João; 'volume reserva técnica', mais conhecido como 'volume morto', é o limite de crédito no cheque especial (clique para ampliar).

A Sabesp atualmente usa três índices diferentes para medir a mesma quantidade de água que ainda resta nos reservatórios paulistas.

Para entendê-los, vamos fazer uma analogia:

João tem como meta, que sempre conseguiu cumprir, manter uma poupança de 100 mil reais para emergências. Mas aí veio a crise, seus gastos passaram a ser maiores que os ganhos e ele começou a fazer saques da poupança. Depois de um ano, tinha apenas 50 mil reais guardados. Depois de dois anos, sua poupança estava zerada. Hoje, ele já entrou no cheque especial e está devendo 10 mil reais ao banco, que lhe oferece um limite de crédito de 20 mil reais. Pode portanto pegar mais 10 mil reais emprestados, se necessário.

Quantos porcento da sua meta de poupança João tinha ao longo do tempo?

Segundo o governo, esta pergunta admite três respostas certas:

  • Pelo “Índice 1”, João tinha 70% depois de um ano, 20% depois de dois e 10% hoje.
  • Pelo “Índice 2”, João tinha 58,3% depois de um ano, 16,6% depois de dois e 8,3% hoje.
  • Pelo “índice 3”, João tinha 50% depois de um ano, 0% depois de dois e -10% (saldo negativo) hoje.

O “índice 1” considera que as economias de João são a soma do que ele tem efetivamente guardado mais os 20 mil de cheque especial, dividido pelo valor da sua meta de poupança — 100 mil reais. Quer dizer, o limite de crédito (20 mil) é somado ao dividendo, mas não ao divisor. Desta forma, é possível dizer que hoje João ainda tem 10% (10.000/100.000) da sua poupança apesar de estar devendo ao banco. O problema deste índice fica evidente se João recuperar toda sua poupança, pois aí ele terá atingido um índice de 120% (120.000/100.000) de suas economias!

Diante desta distorção, criou-se o “índice 2”, no qual os 20 mil também são somados ao divisor. Apesar de um pouco mais realista, este índice ainda considera o limite de crédito como fazendo parte da poupança de João, o que permite afirmar que ele tem 8,3% (10.000/120.000) de suas economias apesar do saldo negativo.

O terceiro índice, que o governo deixou de usar a partir da crise hídrica de 2014 e só voltou a divulgar depois que foi obrigado a tal pelo Ministério Público, não considera o limite de crédito como patrimônio, dividindo o que João tem de fato economizado pela sua meta de poupança.

Para avaliar com mais objetividade a situação dos reservatórios, é importante saber quais índices são utilizados nas reportagens sobre o assunto. Lembrando que antes da crise hídirica só existia o "índice 3". Portanto, somente este índice pode ser usado para fazer comparações com índices históricos anteriores a 2014.

Neste exemplo, do Estadão, o que subiu de 16% para 16,1% foi o "índice 1" (chamado de "tradicional" pelo jornal, apesar de ter sido criado recentemente). O "índice 2" foi de 12,4% para 12,5%. O aumento na quantidade de água foi menor que um décimo percentual no cálculo do "índice 3", fazendo com que ele permanecesse em 13,2% negativos.

Pelo índice 3, o sistema Cantareira está negativo desde maio de 2014. Este ano, voltou a chover dentro das médias históricas, mas isto não aumentou os níveis dos reservatórios, a não ser por pouco pontos percentuais por períodos curtos, para voltar a baixar em seguida.

A analogia com a poupança também se aplica em relação aos juros. Para João quitar a dívida de 10 mil reais com o banco, ele precisará pagar mais de 10 mil reais, pois haverá acréscimo de juros. Sobre o consumo do volume morto também incidem "juros": quando este volume é consumido, o fundo dos reservatórios fica exposto ao sol e seca, perdendo sua camada impermeável. Assim, as primeiras chuvas são absorvidas pelo solo e não contribuem para o aumento da quantidade de água reservada.

Tudo isso faz crer que, apesar de a mídia comemorar cada décimo porcentual de aumento temporário dos níveis, ainda não há solução para esta crise no horizonte nem estão descartadas as possibilidades de racionamentos severos nos próximos meses ou anos. Ainda dependemos de chuvas acima da média e diminuição drástica do consumo.

 

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