O Hall

Dois grandes portões de ferro trabalhado, idênticos, um à frente do outro, formando uma cela, adiante um espelho d’água com cascata, e atrás, emoldurado por duas colunas, o hall envidraçado, pé-direito duplo, exibindo orgulhoso todo seu interior aos transeuntes, com poucas e requintadas peças de mobiliário. O centro era rigidamente marcado, acima por um lustre pendente de galhos de cristal, folhas de latão e lâmpadas no lugar de flores; abaixo pelo piso, ornado por uma rosácea de mármores brancos, pretos e castanhos. Ao fundo, um grande espelho duplicava todos os elementos e a rua. A única quebra na simetria do conjunto era a porta do elevador, à direita, mas o decorador foi habilidoso ao equilibrá-la com um sofá, uma pintura abstrata e uma palmeira num vaso, à esquerda.

Vistos da rua, os marcos da prosperidade enfileirados e duplicados pelo espelho, onde o observador ao final via refletida sua própria pequenez por trás dos portões, formavam uma perspectiva imponente, principalmente à noite, quando as flores do lustre eram acesas e a iluminação da cascata, controlada por computador, tingia as águas de cores alternantes. Isso deve ter contribuído para o sucesso de vendas do empreendimento. Assim, vinte e duas famílias ocuparam rapidamente os vinte e sete pavimentos da torre, contando a cobertura duplex, o térreo, dois subsolos de garagem e o primeiro andar, onde um apartamento cedeu lugar à duplicação da altura do hall, salão de fitness e sauna.

Desde os primeiros estudos do arquiteto, que agradaram em cheio os incorporadores, aquele hall estava predestinado a sediar revigorantes votos de bons dias e boas noites, promover a saudável socialização entre vizinhos e zelar pela imagem dos condôminos.

No entanto, as pessoas que moravam sobre ele raramente apareciam. Em geral entravam e saíam de carro pelo subsolo. Havia cinco garagens por apartamento, o que garantia a mesma comodidade à maioria dos visitantes. Os empregados chegavam a pé pelo térreo, mas usavam a entrada de serviço. Crianças costumavam brincar lá, mas depois que o garoto do décimo-quarto acertou uma bolada no lustre, isto foi proibido na reunião extraordinária convocada para providenciar o conserto urgente do lustre e a aplicação das penalidades previstas no regulamento. A linda moça do oitavo, que vinha aguardar ansiosa a chegada do namorado todas as sextas-feiras, terminou o namoro.

Assim, o hall nascido para o glamour estava quase sempre entregue a uma inércia melancólica, só quebrada quando alguém descia para buscar uma pizza-delivery ou para aguardar um táxi.

Alegres exceções eram os dias de festa, quando um sorridente séquito de convidados bem vestidos passava admirando o lustre e retocando o penteado no espelho enquanto o elevador não chegava. Nestes raros dias, em que o hall podia experimentar a plenitude das suas potencialidades, a fachada de vidro reluzente na penumbra da vizinhança parecia sorrir para quem chegava.

No mais, suportava os dias na expectativa de qualquer sinal de vida. Amava o faxineiro, que vinha religiosamente às terças e sextas trazendo escada, baldes, panos e todo o aparato para polir os vidros, varrer a rosácea, regar a palmeira e espanar o pó do lustre com incrível delicadeza, dando ao hall tratamento condizente com sua posição no edifício. Talvez por falta de reconhecimento do síndico, que lhe negava os pedidos de aumento, com o tempo foi relaxando: o pó se acumulava e os vidros mais altos ficavam manchados de chuva seca.  Ninguém percebeu ou se importou. As visitas do faxineiro, antes um deleite, se transformaram em tormento: seus gestos eram brutos, arrastava a escada sobre o mármore causando rangidos arrepiantes, batia com a vassoura no pé do sofá, chutava baldes.

Mas quem subverteu para sempre todas as crenças daquele solitário e orgulhoso hall foi um porteiro do turno da madrugada. Eram mais de três horas de uma noite fria e silenciosa quando o lustre subitamente se apagou. Deixou seu posto na guarita e foi verificar. Ouvindo apenas seus próprios passos ecoarem no amplo espaço, circundou todo o hall até encontrar o interruptor, que acionou várias vezes sem efeito. Sentou-se à beira do sofá para pensar no que fazer, sentiu a maciez das almofadas e o toque caloroso do veludo, olhou para cima e viu como o lustre era belo mesmo apagado. Recostou-se para admirá-lo melhor. Reparou que as luzes da cascata produziam reflexos coloridos no teto, violeta, azul, verde, amarelo, laranja, vermelho...

Na manhã seguinte a senhora do vigésimo-primeiro acordou cedo, determinada a iniciar as caminhadas prescritas pelo cardiologista. Flagrou o porteiro ainda esparramado no sofá, sem os sapatos, aos roncos. Foi obrigada a berrar o nome dele várias vezes para conseguir que despertasse.

O porteiro foi demitido no mesmo dia, por justa causa. O hall, depois de servir por uma noite como dormitório, compreendeu que, apesar das aparências, era na verdade o mais miserável dos cômodos daquele edifício.

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