Dos males, os menores

Em um subsolo de estacionamento, dois motoristas consumiam suas já baixas provisões de paciência rodando em busca de uma vaga livre para estacionar, até que a encontraram, ao mesmo tempo, a mesma única vaga. Um veio pela direita, outro pela esquerda, quase colidiram, ninguém conseguiu estacionar, mas avançaram o suficiente para impedir o outro de entrar.

Começaram a argumentar das janelas de seus automóveis, e depois que o tom de voz já era alto o bastante para atrair uma pequena plateia, um deles saiu do carro, o outro em seguida, dedos foram apontados para narizes, se deram alguns empurrões e logo estavam se socando e se chutando.

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Em uma capital globalizada, seis homens portando metralhadoras invadiram uma agência bancária repleta de clientes. Ordenaram todos a deitar no chão e não se mexer enquanto as bolsas eram preenchidas com o dinheiro dos caixas.

Não se sabe quem chamou a polícia, que em poucos minutos cercou o prédio e posicionou atiradores de elite nos topos dos edifícios.

Os assaltantes exigiram um ônibus para não matar todos os reféns. Sem alternativa, a polícia cedeu.

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Em uma democracia ocidental, o candidato novato era inexpressivo no início da campanha, mas os eleitores, cansados da mesmice no poder, pareciam gostar de suas declarações polêmicas, que o fizeram decolar nas pesquisas.

Constatando o sucesso da estratégia, ele disse que, se eleito, baniria do país todos os seguidores da religião trapeziânica. Foi então rechaçado por analistas de esquerda e de direita, que consideraram aquilo uma afronta à Constituição. A opinião pública reagiu e ele começou a cair nas pesquisas, até ser considerado carta fora do baralho às vésperas da eleição.

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No Conselho de Segurança, o Secretário classificou como “um crime contra a humanidade” o ataque com armas do tipo X – proibidas pela Convenção de Genebra –, que teria sido perpetrado pelas tropas do regime contra os rebeldes, matando e mutilando centenas de civis inocentes. Conclamou os membros a tomar uma atitude dura, porém necessária para pôr um fim àquela “obscenidade moral”.

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No subsolo de estacionamento, o segurança chegou logo e interveio: “Senhores, podemos resolver isso de forma mais civilizada. Serão dez rounds, não vale mordida, dedo no olho nem golpe abaixo da cintura, o resto vale. Lutem!”

E a plateia, atrapalhando a circulação de veículos, fechou um círculo ao redor dos contendores e começou a torcer e apostar.

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Na capital globalizada, os bandidos obrigaram todos a formar uma massa humana, no meio da qual se misturaram, e assim saíram da agência caminhando lentamente em direção ao ônibus. O comando da polícia, depois de consultar pelo rádio os atiradores de elite e confirmar a viabilidade da operação, mandou abrir fogo.

Os seis assaltantes foram mortos antes de chegarem ao ônibus. Assim como onze dos trinta e dois reféns.

E os habitantes da capital globalizada, consternados, apoiaram a atuação da sua polícia, que sempre age dentro de rigorosos princípios morais, entre os quais está a máxima de nunca negociar com bandidos que usam reféns como escudos humanos.

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Na democracia ocidental, terroristas trapeziânicos abriram fogo aleatoriamente durante um concerto de rock um dia antes da eleição. Foram dezenas de mortos, entre eles algumas celebridades. O trágico atentado comoveu o mundo e traumatizou a nação.

O candidato novato foi eleito e cumpriu sua promessa de campanha, o que provocou a multiplicação dos ataques terroristas nos anos seguintes.

E os eleitores cansados da mesmice no poder sentiram-se reconfortados por terem eleito alguém que sabia como lidar com terroristas.

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No Conselho de Segurança, a moção do Secretário foi aprovada por nove votos a favor, cinco votos contra e uma abstenção. Na semana seguinte, drones iniciaram o bombardeio das tropas do regime com armas do tipo Y – aprovadas pela Convenção de Genebra –, matando e mutilando centenas de civis inocentes.

E o mundo acompanhou a operação pelas imagens dos drones: aéreas, em preto e branco, os pontos claros correspondendo aos alvos atingidos.

 

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