Minha Primeira Bicicletada

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Sempre gostei de pedalar e me entusiasma o potencial revolucionário da bicicleta para causar transformações positivas na cidade. Me viro razoavelmente bem sobre o selim durante o dia: conheço os macetes de substituir as avenidas expressas por ruas menores e mais seguras, entre outras providências de pedal defensivo, já tendo superado o mito de que pedalar em São Paulo é uma loucura quase suicida, como muitos ainda acreditam.

Mas à noite a coisa é diferente. Primeiro, porque é mais difícil enxergar: um desses milhares de buracos no asfalto, que no carro provoca apenas um desconforto, na bicicleta pode significar um tombo grave. Segundo, porque é mais difícil ser visto, diminuindo as chances de um motorista evitar um acidente. Fora o risco aumentado de assalto. É por isso que proliferam os grupos de pedal noturno. No Google, você encontra vários deles, praticamente todo dia da semana tem um, saindo de vários bairros e para ciclistas com diferentes níveis de experiência. Pedalar em grupo reduz muito os riscos, pois a "massa crítica", ao ocupar mais espaço na via, fica mais visível e com mais condições de se impor perante os veículos maiores.

Estava tudo certo para minha primeira experiência noturna depois de décadas na quarta-feira. Soube de um grupo – o Clube dos Amigos da Bike – que se reunia no Parque das Bicicletas, bem perto de casa. Finalmente eu inauguraria a iluminação da bike, comprada meses atrás já com essa intenção. Mas minha mulher, presa no trânsito, não conseguiu chegar e para não deixar as crianças sozinhas não pude ir. Então lembrei que estava na semana da Bicicletada, a versão brasileira da Critical Mass, que é um grupo de pedal noturno como os outros, em que as pessoas se reúnem para fazer o que gostam em condições mais favoráveis, mas vai além dos outros, por ser um movimento político. A intenção não é só pedalar, mas conscientizar as pessoas da viabilidade da bicicleta como meio de transporte, mesmo em cidades como a nossa, e buscar um resgate do uso da rua pelas pessoas, não só por veículos motorizados, como espaço de convívio e não só de passagem.

Pedalar com o grupo já sabia que seria fácil e divertido; a parte difícil seria ir sozinho de casa, em Moema, até a Praça do Ciclista, na Av. Paulista com Consolação, trajeto com ladeiras respeitáveis, que deveria ser percorrido à noite e na hora do rush. Mas, com o tesão enrustido desde quarta-feira, agenda livre, mecânica da minha velha Nishiki ano 91 razoavelmente em dia, nenhuma probabilidade de chuva e uma bela lua cheia, não havia desculpas. Seria improvável encontrar condições mais propícias. Então coloquei o capacete e fui!

Na Av. Moema, cruzei com uma bela ciclista, que me cumprimentou no semáforo. Os capacetes, a condição compartilhada de fragilidade e a sensação de ser um pino de boliche numa pista abarrotada de bolas pesadas provoca identificação imediata. Na Estados Unidos, outros dois ciclistas, igual troca de cumprimentos e rápida conversa durante o sinal vermelho. Me contaram que costumavam pedalar com frequência por ali, em dupla para ficar mais seguro. Logo estava na Bela Cintra, o ponto que mais me preocupava, não pelo tráfego, completamente parado, mas pelo acentuado aclive. Joguei uma marcha baixa e constatei satisfeito que a ladeira não era tão desafiadora; ia evoluindo bem por entre carros parados e motoristas buzinando irritados. Logo acima soube o motivo do congestionamento: um táxi capotado e atravessado na pista. Difícil entender como ele foi parar naquela posição, fácil deduzir que excesso de velocidade fez parte da equação.

Apesar de já ter passado de carro diversas vezes pela Bela Cintra, foi preciso estar de bicicleta para perceber que a sua inclinação aumenta drasticamente a partir da Al. Tietê. Essa segunda fase da ladeira exige bem mais das pernas. Mas a bicicleta tem essa vantagem: se a coisa aperta, basta desmontar e você vira um pedestre. Segui empurrando a bike pela calçada por uma quadra, onde troquei cumprimentos com mais um grupo de ciclistas, e já estava na Paulista. Desde Moema, foram 9 km em meia hora de pedalada num ritmo despretensioso. Certamente mais rápido do que se eu viesse de carro na hora do rush.

Às 19h40, havia algumas dezenas de ciclistas se concentrando na Praça. Mais gente não parava de chegar. A maioria homens e jovens, mas também mulheres, pessoas mais velhas, e até algumas crianças. Essa era a Bicicletada dos Executivos, e muita gente veio a caráter, de terno e gravata, tailleurs e saltos altos. Lá pelas 20h15, começaram os gritos "vamos pedalar" e os ciclistas a circular em volta da Praça, sendo que a cada volta mais pessoas aderiam. Não sei quem de repente foi em frente em vez de dar a volta, e assim a massa ganhava a Paulista.

A quantidade de bicicletas era impressionante, centenas, até onde pude observar, para trás e para frente, ocupando duas pistas à esquerda. Era notável a empatia dos pedestres e freqüentadores dos bares das calçadas da Paulista, que erguiam brindes e vivas à nossa passagem. Assim como era notável, com honrosas exceções, a antipatia dos motoristas. A massa avançava sem parar nos semáforos, bloqueados por voluntários homens e mulheres que erguiam cartazes enquanto os carros buzinavam inconformados. O comportamento era diferente com os pedestres, que sempre tinham a preferência.

Na altura do Metrô Paraíso, um contratempo mecânico me fez ficar para trás. Resolvi rápido e segui sozinho por algumas quadras. Foi então que eu conheci o pelotão de retaguarda da Bicicletada. Só deu tempo de levar uma bronca ("você está atrasado!") e vê-los sumir entre os carros assim que o sinal ficou verde. Um deles imitava uma sirene com a voz que era bem convincente. Mais algumas quadras e eu estava novamente com o grupo, que já tinha feito o retorno e tomado a R. Vergueiro sentido centro. Na Liberdade, pessoas dos bares e faculdades nos saudavam.

Seguimos então pelo Centrão: Praça da Sé, Pátio do Colégio, Viaduto do Chá, Anhangabaú, Tiradentes. À noite, várias ruas do centro ficam totalmente sem carros, inteiras para a gente. Na ponte Cruzeiro do Sul, o visual da lua refletida no Rio Tietê era inspirador. Tomamos de assalto a baia de embarque e desembarque do Terminal Rodoviário Tietê. Lugar perfeito para um barulhozinho, pois a cobertura fazia ecoar os gritos de "mais bicicletas, menos carros". Bicicletas foram erguidas. Pedestres sorriam, motoristas estacionados observavam com certa apreensão. Toda a manifestação dentro do Terminal não durou mais que uns 5 minutos, e quando vi os líderes procurando um retorno, compreendi que havíamos chegado ao objetivo daquela noite, iniciando a volta ao ponto inicial.

Mas o caminho de volta ainda guardava surpresas. No cruzamento com a Av. do Estado, alguns ciclistas ficamos retidos no semáforo. Um senhor de chapéu, a pé, se pôs à frente de um táxi fazendo o sinal de 'pare' com a mão, para que eu pudesse passar. Me preocupei com a integridade daquele senhor, mão em riste no meio da rua, e achei melhor passar logo para encerrar o episódio o quanto antes. A cena me lembrou aquela famosa do chinês diante do tanque na Praça da Paz Celestial. A buzinada do táxi foi respondida com um palavrão, e o episódio felizmente ficou nisso.

Atravessamos, desmontados, por dentro da Estação da Luz. Seguimos pela Ipiranga, passando pela Praça da República. A subida da Augusta encerraria o trajeto, de cerca de 20 km. Pelo jeito, dei sorte de principiante. Veteranos comentavam que há tempos a Bicicletada não era tão longa. Além do tamanho, o percurso foi especial: fizemos praticamente um city-tour pelo Centro Velho. O Centro à noite, só lembro de ter apreciado com tanta riqueza de detalhes na Virada Cultural, quando percorri a pé algumas da mesmas ruas.

Quando decidi ir, já estava preparado para voltar para casa sozinho. Pois eu não sabia dos "bondes" que rápida e espontaneamente se formavam para diferentes bairros. Peguei o "bonde" Vila Mariana/Jabaquara, e voltei pedalando acompanhado de uma dúzia de ciclistas, ocupando toda uma faixa, quase até em casa. Durante os últimos quilômetros sozinho, só aproveitei a energia potencial que acumulei ao escalar o espigão da Paulista: foram quase só descidas, com pouquíssimos carros, pelas quais deslizei feliz. Cheguei em casa com uma fome e um sono sinceros, daqueles que dá prazer saciar. O odômetro marcava 38 km percorridos, 900 calorias queimadas. Comi, tomei um banho para tirar a fuligem e fui dormir com uma sensação edificante de ter me tornado mais íntimo e mais dono da minha cidade.

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Comentários

Achei sensacional o seu post!!! Tenho amigas, cicloativistas, que participam da bicicletada e comprei minha bicicleta a pouquíssimo tempo. Ontem (domingo) na ânsia de estrear, pedalei pelas ruas próximas de casa e gostei bastante!! Lendo o seu post fiquei com mais vontade de participar da bicicletada, quem sabe na próxima!

Também foi minha primeira bicicletada e eu adorei! Com certeza foi só a primeira de muitas!

Será que voltamos juntos pro "bonde" do Jabaquara? kkk Tava eu e uma meia dúzia!

nossa... que relato lindo!!! eu estive nessa bicicletada e pude reviver as emoções de cada momento... vc teve sorte.. essa em especial foi realmente incrivel!!!! parabens!
e que a bicicleta seja pra vc (assim como é pra mim) um instrumento de conquistas, de novas percepções, de amigos, de vivências e de muita alegria...

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