O Ministério da Saúde adverte

Não foi por falta de aviso

Aconteceu há umas três décadas. Eu tinha vinte e poucos anos, era solteiro, morava com meus pais e fui convocado para ajudar um amigo idem, que enfrentava uma dificuldade muito comum a sujeitos nestas condições (vinte e poucos anos, solteiro, morando com os pais).

Depois de prolongada fase de vacas magras, ele finalmente havia conhecido uma menina, e o fim de semana prometia a tão esperada oportunidade de saciar algumas das fomes básicas que costumam acometer rapazes solteiros de vinte e poucos anos. Meu amigo tinha planejado uma noitada romântica na sua casa, aproveitando a feliz coincidência da ausência dos pais em viagem. Por motivos óbvios, o evento não me incluía, eu que era o seu principal parceiro de noitadas na época.

Por conta disso, as perspectivas para minha noite de sábado eram das mais soníferas, pois, ao mesmo tempo que não tivera a mesma sorte que ele no sábado anterior, quando ele conheceu a tal menina numa danceteria, que era como costumávamos chamar os clubes noturnos na década de 80, eu não tinha nenhuma outra companhia para dar meus rolês na noite paulistana em busca de sabemos-o-quê.

Já me conformando em passar a noite em casa, compartilhando uma pizza com meus pais e depois fazendo qualquer coisa que não fosse assistir com eles o filme da Globo — o que poderia ser estudar violão, instrumento que tentei aprender na época mas nunca consegui, ou ouvir um pouco de música no meu tresenhum (esclarecimento aos mais jovens: tratava-se de um aparelho de som que tinha três funções, toca-discos, toca-fitas e rádio, num único gabinete), ou entregar-me a longas elucubrações escritas e desenhadas num diário que eu mantinha na época, quando não existia redes sociais, todas essas atividades acompanhadas de cigarros Free —, eis que o telefone toca.

Era o amigo, e a dificuldade para cuja solução ele contava com minha colaboração consistia no seguinte. A menina hospedava em sua casa uma prima muito querida do interior, que não podia de jeito nenhum deixar sozinha. Minha missão seria evitar que a prima se transformasse numa segura-vela, como nossos pais descreveriam a situação, ou numa empata-foda, que era a expressão mais corrente na nossa geração. O que para ele era um problema, para mim era uma oportunidade rara de chegar aos fins sem o habitual desgaste inerente aos meios, isto é, eu teria uma chance de fazer sexo sem ter de perambular e gastar meu salário de estagiário pela já repetitiva noite paulistana e, o que era melhor, pulando a sempre complicada e frequentemente malsucedida etapa da abordagem inicial.

Nessa idade, mesmo com diversas evidências em contrário, algo subconsciente nos faz crer que a prima de uma determinada menina só pode ser tão linda quanto a própria menina. E a menina em questão era um chuchuzinho, fui o primeiro a reparar isso na danceteria. Inclusive eu, em geral mais tímido que o amigo, tinha sido, excepcionalmente, o primeiro a tomar a iniciativa da abordagem, talvez pelos dotes da menina justificarem maiores riscos, ou por conta de uma dose maior de coragem consumida com limão e açúcar naquela noite. Mas ela preferiu meu amigo, fazer o quê (teria sido o fato de eu feder a cigarro com caipirinha?).

A prima, embora reforçasse as evidências em contrário citadas acima, tinha lá seus encantos, o principal deles era que eu não tinha nada a perder, outro era um sorriso sutil porém persistente toda vez que dirigia a palavra a mim. A noite se desenvolvia bem até o final da refeição, elas satisfeitas com as habilidades culinárias do anfitrião e com minha capacidade de dizer coisas engraçadas, ambas as satisfações desproporcionais aos nossos respectivos talentos. Até o momento em que acendi um cigarro, o primeiro da noite. A prima começou a revirar sua bolsa, enquanto seu sorriso aos poucos se tornava menos sutil. Imaginei que ela teria ficado aliviada ao constatar que havia um fumante no recinto, e que afinal poderia saborear o cigarro custosamente evitado até então, por não saber se seria mal recebido. Este é um momento mágico de identificação que costuma acontecer muito entre fumantes, quando, num grupo de pessoas pouco conhecidas, o viciado se rende, manda às favas os escrúpulos e acende um cigarro numa tragada voluptuosa e profunda, sem se importar se vai incomodar os demais, desencadeando um efeito dominó, que faz todos os fumantes do recinto o imitarem quase imediatamente, trocando olhares de cumplicidade e destacando-se do restante das pessoas comuns, que não compreendem as dores e delícias do tabagismo.

Mas o que saiu daquela bolsa foi um papelzinho amarrotado, que ela me entregou. A julgar pela amplitude do sorriso da prima enquanto me estendia o braço, àquela altura já escancarado, por um momento cheguei a acreditar que o conteúdo do bilhete só poderia ser alguma forma de assédio mais ou menos explícito, do tipo "vamos logo fazer o que viemos fazer aqui". Era uma cópia xerox de um texto datilografado por algum gênio literário anônimo que, por suas evidentes virtudes humorísticas, deve ter sido motivo de muitas gargalhadas em rodas de bar e ter se alastrado como um spam na cidade do interior onde ela morava, numa época em que spam nem existia. Infelizmente não mantive o papel, portanto vou privá-los do teor exato da singela notinha, que tento reproduzir aqui num esforço hercúleo de memória, decerto comprometendo a brilhante espirituosidade e a fina ironia do original, mas ela dizia mais ou menos isso:

Prezado(a) amigo(a),

 
Você gosta de fumar. O resíduo do seu prazer é a fumaça. 
Eu gosto de beber cerveja. O resíduo do meu prazer é o xixi.

Você não gostaria que eu despejasse o resíduo de meu prazer em você, isto é, não quer que eu faça xixi em você.

Sendo assim, você também não deve despejar nos outros o resíduo do seu prazer. Portanto, NÃO FUME PERTO DE MIM!

Foi com evidente decepção que vi minhas expectativas de mágica identificação e assédio mais ou menos explícito se desmaterializarem num átimo, enquanto nuvens negras estacionavam pesadas sobre a mesa de jantar. O amarelo da nicotina nos meus dentes somou-se ao negro da atmosfera, de forma que a cor do sorriso que eu dei deve ter sido algo como verde-musgo.

Meu amigo, temendo que o clima pusesse a perder todos os seus luxuriosos planos para o resto da noite, apressou-se em declarar que também odiava cigarro. Mentira. Embora não pudesse ser classificado como fumante, ele costumava filar meus cigarros e confiscar meu isqueiro nas danceterias, especialmente quando a menina-alvo da vez estava precisando de fogo, aquele necessário para acender um cigarro, bem entendido, sem prejuízo da sua disposição para prover outros eventuais calores que ela desejasse.

Chuchuzinho limitou-se a um breve olhar de censura para a prima e um de desculpas para mim, deixando claro que sua intenção em dar sequência à programação do evento não fora abalada pelo incidente. Tanto que logo levantou-se, pedindo ao meu amigo para ouvir o "Passo do Lui", disco do Paralamas do Sucesso então recém-lançado, e se retiraram ao quarto dele, onde ficava o seu tresenhum.

Agora, relembrando o acontecido, pensei numa resposta excelente que poderia ter dado. Diria à prima que eu não me importaria se ela despejasse sobre mim os resíduos de qualquer prazer que fosse, desde que isso proporcionasse prazer a ela, que eu estava lá justamente para levá-la ao deleite, que o prazer dela seria o meu prazer. É uma pena que esta presença de espírito não tenha me acometido na ocasião (como aliás todas as grandes tiradas da vida, que só dão as caras quando já não podem ser mais aplicadas), pois isso apressaria o desfecho do nosso encontro, para o bem ou para o mal. Talvez ela se levantasse indignada da cadeira e exigisse ser levada imediatamente para casa, o que teria sido melhor que o silêncio de velório que imperou quando ficamos a sós na sala. Ou quem sabe a provocação tivesse despertado a fera oculta dentro da pacata moça do interior e ela partisse para os finalmente com um apetite inédito.

Mas, no melhor estilo bom-mocinho que costumava cultivar à época, e que — agora percebo — foi responsável por uma parte considerável dos meus fracassos nas danceterias, limitei-me a dizer que, se o cigarro incomodava, era só pedir, que eu o apagaria. "Apagar" aqui é um eufemismo, pois a ação requerida para interromper a vida de um cigarro recém-acendido melhor se descreve como execução por esmagamento. E foi a essa tarefa que me dediquei minuciosamente durante os longos e silenciosos segundos subsequentes. Não foi fácil, o cigarro resistiu como pôde, e quando pensei que estava tudo acabado, ele ainda agonizava, soltando um fio de sua fumacinha indesejada. Só depois de uma segunda sessão de esmagamento, seguida de esquartejamento, com requintes de crueldade, é que ele afinal feneceu.

Uma vez que a possibilidade de um final feliz para a nossa noitada se revelava bastante remota diante do absurdo da situação — um fumante assumido tentando levar para cama não uma mera fumante passiva incomodada, mas uma antitabagista militante, xiita e, diga-se de passagem, muito à frente do seu tempo, porque ninguém abraçava esta causa nos anos 80 — não protestei quando a prima alegou que no dia seguinte (um domingo!) teria de acordar cedo, então me ofereci a levá-la para casa. Enquanto ela recolhia o bilhete de volta para a sua bolsa, não sei se com a intenção de usá-lo novamente em outros encontros ou se simplesmente para eliminar as provas da ocorrência, notei que o sorriso dela estava mais apagado que o cigarro despedaçado no cinzeiro. E nesse momento senti uma certa compaixão pela prima.

Do pouco que conversamos no carro, lembro apenas da frase que ela disse antes de sair: "E pare de fumar, viu?" Achei fofo. Mal virei a esquina, um Free já se encontrava aceso e altivo no canto da minha boca. Os resíduos do meu prazer escapavam pela janela entreaberta do Chevette e se dissolviam no céu amarelado pelas luzes de vapor de sódio das ruas da Vila Mariana.

Blog tags: 
Compartilhe: 

Comentar