O que esperar das chuvas

foto: www.estadao.com.br

A chuva dessa madrugada provocou 14 mortes em São Paulo até agora, mas os sobreviventes estamos mais preocupados com o trânsito, que nos afeta diretamente. Pois bem: foram 132 pontos de alagamento. Todo verão é a mesma coisa: as chuvas são maiores que as esperadas. Oras, se há anos chove mais do que se espera, não é hora rever essas expectativas para maior?

Daí vêm os governantes, esses desafortunados que têm de lidar com o mau humor de São Pedro justo nas suas gestões, e na contramão de conceitos urbanísticos correntes, impermeabilizam mais uma faixa de várzea equivalente a 20 quadras ao lado de um rio que já transbordava antes. Fora as centenas de árvores derrubadas. O que eles esperavam que acontecesse?

Quando não chove, já é temerário afirmar que o trânsito melhorou com o alargamento da Marginal Tietê. Os congestionamentos depois de alguns meses da inauguração já se aproximam dos níveis anteriores à obra.

Mas o que eles esperavam que acontecesse? Se tivessem ouvido os urbanistas, só poderiam esperar uma melhora passageira dos congestionamentos, até que todo o sistema circulatório da cidade se acomodasse na nova conformação. Mas preferiram ignorar os alertas, atropelar planos diretores e seguir em frente. Esses meses não são nada para a vida de uma cidade, mas podem significar muita coisa num calendário eleitoral...

Existem milhares de nós nas "mangueiras" que conduzem os carros na cidade, se você desatar meia dúzia deles o aumento de fluxo é desprezível. É uma medida que não tira carros das ruas. Ao contrário, incentiva o seu uso (daí vem os governantes, reduzem o IPI de automóveis e aumentam a passagem de ônibus).

Tivessem os governantes ouvido os urbanistas, não poderiam esperar senão o aumento dos alagamentos e o consequente estrago que eles causam ao trânsito (já que não estamos falando de vidas), além de uma deterioração geral do espaço urbano, com o sacrifício de lugares públicos que ainda poderiam receber pessoas (a via foi construída onde deveria ser um parque linear) para doá-los à fome insaciável dos automóveis particulares.

Ao rio só restou ser o esgoto da cidade, para o qual a gente vira as costas e tampa o nariz. Mas quando chove, ele se revolta e aí só se pode esperar que toda essa merda venha à tona.

Blog tags: 
Compartilhe: 

Comentários

Sem a ampliação o trânsito talvez estivesse um pouco melhor, pois a área permeável ao lado do rio – que foi impermeabilizada pelas novas pistas – teria evitado uma parte dos 132 pontos de alagamento.