Por que voltei a pedalar por esporte na pandemia

Foto: UOL

A pergunta virou polêmica nos círculos ciclísticos, inclusive entre os amigos do Cicloativo: pedalar na pandemia, pode?

Paulo Mendes, entre outros ciclistas e cicloativistas que se manifestaram nas redes, considera que não devemos pedalar se for "só" por lazer ou esporte. Não vi ninguém questionando o uso da bicicleta como meio de locomoção e isso foi até recomendado pela OMS, embora a finalidade do pedal não mude os riscos envolvidos.

Foi para alguns curtos trajetos de tarefas essencias que voltei a pedalar depois de um tempo bem quieto em casa. Então comecei a me perguntar se seria errado adicionar alguns quilômetros a esses trajetos por puro esporte. Até chegar à situação atual, em que tenho pedalado não necessariamente como transporte, mas pela atividade física.

Antes de explicar minha opinião, e para evitar a polarização política que acaba desvirtuando tantas discussões razoáveis, começo com um esclarecimento: não acho que esta pandemia seja uma "gripezinha" ou qualquer coisa menor do que uma calamidade global, que mudou o mundo e requer toda a nossa atenção e cautela. Sou a favor da quarentena e de adotarmos todas as medidas sanitárias recomendadas pelas autoridades de saúde. Minha opinião tem pouco a ver com política e foi formada a partir de boa informação sobre as formas de propagação do novo coronavírus, cujas fontes podem ser vistas em links ao longo deste texto.

Sabe-se que o principal meio de contágio se dá de pessoa a pessoa, isto é, por meio de gotículas de saliva ou secreção expelidas pela boca ou nariz de alguém infectado chegando até a boca, nariz ou olhos de outra pessoa. Isso pode acontecer quando alguém tosse, espirra ou fala muito próximo de outra pessoa. Portanto, a principal forma de prevenção ao contágio é o chamado distanciamento social, de aproximadamente 6 pés ou 2 metros, que é a distância necessária para que essas gotículas caiam no chão antes de atingir outra pessoa. O uso de máscara facial, que é uma barreira contra o espalhamento dessas gotículas, também é uma precaução recomendada, principalmente em ambientes fechados e quando as distâncias mínimas não podem ser obedecidas.

Outra forma de contágio, menos provável mas ainda possível, é quando essas gotículas se depositam em superfícies ou objetos que então são tocados por outra pessoa, que depois toca o próprio rosto sem ter lavado as mãos. Daí que lavar as mãos com frequência também é uma das recomendações para evitar o contágio.

Um fator importante que afeta o risco de contágio e que entrou em pauta mais recentemente é a chamada carga viral — a quantidade de vírus necessária para alguém se contagiar. Não basta ter contato com o vírus: é preciso ter contato com uma certa carga viral mínima, abaixo da qual a pessoa não adoece. A chance de adoecer se alguém contaminado tossir na sua cara é maior do que se a mesma pessoa apenas falar normalmente na sua frente. A chance de se contaminar se você permanecer 5 minutos conversando perto de alguém contaminado é menor do que se permanecer 5 horas nesta situação. A chance de contágio se esta conversa acontecer num ambiente fechado é bem maior do que ao ar livre, onde o vento, o espaço e a luz solar diluem a carga viral. A chance de adoecer por ter tocado um objeto contaminado, embora não seja impossível, é improvável, é menor do que no contato direto com as gotículas expelidas por alguém contaminado, depende de quanto tempo passou e de como o objeto recebeu a carga viral, se foi apenas por uma mão contaminada ou se foi por uma pessoa tossindo sobre ele (você não deve se preocupar em com a correspondência ou encomendas entregues pelo correio).

Na China um estudo de surtos de covid-19 constatou que apenas 1 em mais de 7.000 casos pesquisados aconteceu ao ar livre. Os outros foram todos em ambientes fechados. E mesmo nos ambientes fechados, certas condições precisam existir para o contágio ocorrer. Esta investigação minuciosa de três surtos na China, embora não seja diretamente aplicável à questão que discutimos aqui, também ajuda a entender como a doença se propaga — e como ela não se propaga.

Tudo isso considerado, a conclusão é que o risco de contágio ao ar livre, mantendo o distanciamento social e usando máscara como precaução adicional, é realmente muito baixo, como explica em detalhes esta reportagem da Vox (se quiser ler apenas um link deste post, leia este). Bem mais baixo do que o risco de ir ao supermercado, de pegar um ônibus ou tomar o elevador do prédio.

Risco muito baixo é o cenário ideal, porque risco zero não existe. É por isso que, mesmo em alguns países que impuseram lockdowns super-rigorosos, com multa e até prisão para quem fosse pego na rua sem justificativa, as corridas/pedaladas solitárias ao ar livre continuaram permitidas, porque, em termos de saúde pública, as autoridades julgam que os benefícios da prática superam os riscos: o exercício fortalece o sistema respiratório e imunológico, além de ajudar a combater problemas emocionais comuns no isolamento, como depressão, ansiedade, pânico e fobias. Metade da população mundial acima de 50 anos tem hipertensão, inclusive eu, o que me coloca no grupo de risco. O exercício aeróbico moderado e prolongado faz milagres pela minha pressão arterial, diminuindo a chance de complicações no caso de eu ser infectado.

Muitos vão dizer que é possível fazer exercício em casa. Claro que é, para a sorte de quem pode, mas esta não é uma possibilidade universal: tem gente que não sabe fazer isso, que tem problemas ortopédicos e outras limitações físicas ou simplesmente não tem espaço em casa. E visto que as evidências mostram a segurança das atividades ao ar livre com distanciamento, não há razão para trocar uma modalidade prazerosa e benéfica por outra que, pelo menos para mim, é complicada e chata.

Aliás, o ar livre nos salvará! Muitas atividades têm que ser levadas para o lado de fora. Vamos ampliar as ciclovias para desafogar os transportes coletivos. Vamos dar aulas nos páteos. Vamos montar comércios e serviços em ’parklets’ nas ruas! Não faz sentido abrir os shoppings e manter os parques fechados. Mas isso já é assunto para outro post.

Alguns dirão que o ciclismo é uma atividade de risco, que pode fazer você precisar de um hospital num momento em que eles estão sobrecarregados. É claro que isso pode acontecer, assim como é possível ter um acidente doméstico qualquer. Eu pedalo regularmente na cidade desde o século passado e, graças a deus, a última vez que precisei de hospital por conta da bicicleta foi nos anos 1990. Por outro lado, um amigo foi parar no hospital ontem — estimo as melhoras, Appio! Foi levar cachorro para o passeio diário, o bicho viu um gato, disparou atrás dele e fez o Appio tropeçar na guia e cair. Teve que levar pontos no nariz! E o Appio nem tem bicicleta…

Considerando que ainda vamos conviver com essa pandemia ainda por um bom tempo (novas ondas da doença estão surgindo em países que pensavam ter controlado a pandemia), em vez de aguardar ansiosamente por uma volta à normalidade que vai demorar a chegar, se é que um dia chegará, é mais sensato trocar o medo indiscriminado por estratégias racionais de redução de danos para conviver melhor com a nova realidade. E uma delas é aumentar a presença das bicis nas cidades, não só como meio de transporte, mas também como forma de promover a saúde física e mental. Então vamos pedalar, sozinhos (a reunião do grupo de pedal vai ter que esperar), munidos de boa informação, obedecendo ao distanciamento, usando máscara, com responsabilidade e respeito ao próximo, atravessando esta fase complicada com mais serenidade e saúde.

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