Dos significados do K

Casimiro Leal não costumava dedicar muita atenção ao mural de Maria Cândida, posto que suas atualizações de status em geral versavam sobre banalidades, o trânsito para o trabalho, se ia chover ou fazer sol, as colheitas de Farmville, youtubes de artistas populares, abaixo-assinados pelo meio-ambiente, adoção de cãezinhos abandonados. Mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, somado ao fato de ser jovem e bela, era popular a rapariga, e começava novas amizades numa velocidade muito superior à de Casimiro, cujos status evidenciavam sua maior sofisticação intelectual, a mesma sofisticação que flechou o coração de Maria Cândida quando esta era aluna daquele e iniciaram um relacionamento sério, conforme consta nos perfis de ambos desde então.

Casimiro Leal se interessava mais pela lista de amigos de Maria Cândida e por muito tempo conferiu um a um os perfis sorridentes adicionados em profusão a ponto de a obsessão começar a roubar-lhe o tempo precioso da sua teste de doutorado. A frequência com que era flagrado no departamento navegando no facebook começava a ficar embaraçosa, despertando comentários desdenhosos de parte do corpo docente, que considerava aquilo uma grande perda de tempo, enquanto outra parte defendia a legitimidade da exploração das mídias sociais como instrumento de investigação sócio-antropológica. Decidiu controlar-se, dizendo a si mesmo que aquele era o preço de ter uma mulher jovem, atraente e sociável, com muitos contatos no trabalho, na faculdade, na academia, no grupo de teatro, entre outros locais onde Maria Cândida desfilava seu sorriso luminoso e fácil, sendo que se autoimpôs a regra de não visitar perfis enquanto estivesse na universidade. Valeu o esforço, Casimiro afinal encontrou um fio de meada que reacendeu seu enfraquecido entusiasmo pela tese, e numa madrugada em casa, depois de leituras exaustivas mas proveitosas, concedeu-se uma navegada ao léu, começando pelo facebook de Maria Cândida.

Entre os habituais corações multicoloridos, birthday-calendars e comentários meteorológicos, reparou que Maria Cândida agora ensaiava atualizações de status mais elaboradas e introspectivas. A vida nos reserva surpresas, dizia uma delas, O melhor sonho é o que não foi sonhado, arriscava uma outra, Obrigada pelo dia iluminado!, exultava uma terceira, todas elas curtidas por um séquito de amigos e amigas, muitas caras novas desde a última visita, incluindo um certo José Alberto, cujo sorriso, óculos de sol e boné com aba para trás apareciam assiduamente naquelas caixas de comentários.

Casimiro estranhou a longa sequência de letras K, não chegou a contar mas eram mais de vinte, numa alternância aleatória entre maiúsculas e minúsculas, seguidas por diversas exclamações, talvez uma dúzia, deixadas pelo rapaz em um dos status de Maria Cândida. Não por que não soubesse que aquilo significava risadas, neste ponto Maria Cândida já o havia socorrido, ensinando-lhe este e outros códigos correntes da norma eletrônica, tais como os dois pontos seguidos de um parêntese de fechamento, que deveriam ser interpretados como sorriso ou contentamento, mas se o parêntese fosse de abertura o significado era tristeza e se, em vez de dois pontos, houvesse o algarismo oito, dever-se-ia acrescentar espanto à alegria ou tristeza que o respectivo parêntese sinalizava. Casimiro considerava esses hieróglifos uma futilidade, um retrocesso, quase uma afronta ao vernáculo, afinal a humanidade já há milênios abandonara as pinturas rupestres em favor de alfabetos e vocabulários sofisticados, aperfeiçoados ao longo das civilizações para melhor comunicar conceitos primordiais como alegria e tristeza, risada e espanto. Mas, por amor, aprendeu a tolerar e até mesmo a nutrir alguma simpatia inconfessa por esses desenhos, visto que os e-mails de Maria Cândida abusavam do recurso.

Justamente por compreender essa linguagem melhor que as pessoas da sua geração é que Casimiro inquietou-se com a maneira como foram encadeadas aquelas letras K e pontos de exclamação, pois era evidente que o tal José Alberto não só estava rindo, na verdade gargalhava escandalosamente, balançava-se na cadeira ao ritmo da alternância entre maiúsculas e minúsculas, esmurrava a mesa a cada exclamação, a ponto de ser advertido ou mesmo convidado a se retirar caso a gargalhada fosse verbalizada, por exemplo, na biblioteca da universidade.

A perna da Tia Adelina, graças a deus, está a cicatrizar bem, mas a da cadeira, coitada, não tem mais conserto... Tal era o teor do status, publicado numa manhã de segunda-feira por Maria Cândida, que propiciara tamanha diversão ao sujeito de boné. Não que o texto fosse desprovido de humor, isso aliás era um artifício comum de Maria Cândida frente a adversidades, tanto que, apesar da suposta gravidade da situação, a primeira coisa que disse, quando começou a explicar a Casimiro por que teriam de cancelar o fim de semana em Cascais, foi Tia Adelina descadeirou-se, querendo dizer que, ao tentar trocar uma lâmpada, a velha caíra de uma das cadeiras da sala de jantar que não suportou seu peso, uma vez que Tia Adelina não era exatamente esbelta. Disse assim mesmo, não exatamente esbelta, mais uma ironia carinhosa, já que a velha não era outra coisa senão francamente obesa. A tia teria telefonado na tarde de sexta, ainda aboletada no local do acidente, por sorte conseguiu alcançar o telefone, estava nervosa, confusa, chorava, gemia de dor, falava de uma perna quebrada, e que Maria Cândida por favor viesse logo. A moça decidiu embarcar com urgência para Loures, onde a tia morava, lamentando a perda do fim de semana em Cascais, tão programado e aguardado por Casimiro. Ele disse que nem pensasse nisso, que acidente não escolhe hora, que o importante agora era a Tia Adelina, que uma fratura nessa idade é coisa séria, que era sorte da tia ter Maria Cândida como sobrinha, e que não esquecesse o casaco, aquele vermelho era adequado (e lhe caía muito bem), pois em Loures costumava esfriar ao final da tarde. Era comovente a preocupação e carinho da jovem pela tia, ele sorria reconfortado imaginando-a ao seu lado numa possível cama de hospital, onde ele se deitaria provavelmente antes dela, até mais cedo do que planejava, caso não conseguisse reverter as alarmantes taxas de glicose no sangue. Este é o preço que pagas por seres tão doce, quase podia ouví-la comentando para amenizar o clima. Na manhã de sábado, Maria Cândida ainda fez a gentileza de mandar uma mensagem de texto para tranquilizá-lo, a tia estava bem, mas ela deveria permanecer em Loures até domingo, bj, onde bj significava beijo. E o gesso, quando tira?, foi a mensagem de Casimiro. Que gesso?????, respondeu Maria, com uma inesperada repetição de interrogações, como se a pergunta de Casimiro fosse descabida. O da perna da sua tia, qual mais?, devolveu Casimiro. KKK, a perna quebrada era da cadeira ;-D, foi a resposta de Maria, e a conversa foi encerrada com esse ponto-e-vírgula, hífen e D maiúsculo, formando um código novo que Casimiro não sabia ao certo como interpretar.

Mesmo os amigos de facebook, que desconheciam o teor dos torpedos particulares trocados pelo casal durante o fim de semana, aos quais a atualização de Maria Cândida fazia sutil porém inegável alusão, era concebível que também achassem graça no paralelo entre a perna da tia e da cadeira, traçado com espirituosidade por Maria Cândida. Era aceitável clicar em curtir, ou digitar dois pontos e parêntese de fechamento para sorrir com a moderação que a ocasião requeria, afinal envolvia uma senhora idosa ainda convalescente. Outra coisa era gargalhar daquela forma histriônica, no mínimo um desrespeito, para não dizer completa desumanidade. Com tantos maníacos a solta pela internet, Casimiro temeu por Maria Cândida e decidiu investigar.

Seiscentos e setenta e quatro amigos, Customer Advisor na empresa PC World, mora em: Lisboa, natural de: Porto, música: rock alternativo, cinema: Iron Man, televisão: Lost, atividades: DJ, interesses: videogame, era o que informava seu perfil. No mural, youtubes, fotos, perguntas respondidas sobre outras pessoas, testes de personalidade, mais youtubes e fotos. Maria Cândida curtiu isso, dizia a frase em carregamentos móveis. Que diabos são carregamentos móveis, pensou enquanto a página carregava, ah, claro, só pode ser má tradução para mobile uploads, malditos anglicismos, para que tanta prolixidade a designar simples fotos de telemóvel. Os enquadramentos eram oblíquos, em primeiro plano sempre José Alberto, seu boné e seu invariável sorriso de dentes brancos e alinhados, o braço direito sempre faltando, provavelmente a segurar a câmera. Se distinguia uma foto da outra pelos fundos, ora um campo, ora uma praia, uma avenida, uma catedral, um canal, a Torre Eiffel. Na última foto, parecia que enfim o pobre diabo conseguira alguém para fotografá-lo, aparecia de corpo inteiro sentado num banco de praça (o lugar parecia familiar), ambos os braços estirados sobre os espaldares. Olhava com ternura para a câmera, ou para quem a operava. Devia ser mulher, a julgar pelo casaco vermelho largado no banco. Fim de semana inesquecível em Loures, dizia a legenda. E Maria Cândida havia curtido aquilo.

Como sou tolo, Casimiro pronunciou em voz alta depois de rastrear cada centímetro quadrado da imagem, a árvore que sombreava o banco de madeira sobre a calçada portuguesa com motivos ondulantes pretos e brancos, o gradil verde de ferro fundido da Praça da Liberdade, sim, era a Praça da Liberdade, sabia que me era familiar, sentamo-nos no mesmo banco no feriado de Corpo de Deus quando Maria Cândida insistiu em me apresentar à tia. Tivesse habilidades de photoshop para ampliar o trecho do tecido vermelho, decerto toparia com os botões revestidos de couro que a atendente da casa de modas disse ser a última tendência, garantindo que a moça ia adorar. Só um idiota para acreditar em tantas coincidências, fazemos a tia sofrer um acidente, que desculpa barata para uma viagem de última hora, imagine a velha Adelina escalando a cadeira para trocar uma lâmpada, que ridículo, a gorda mal podia andar, e a perna quebrada que primeiro era da velha e de repente era da cadeira, seu tonto. Na verdade Maria Cândida zombava da tua ingenuidade com o trocadilho das pernas, seu palhaço. Era de ti que gargalhava o canalha do boné, seu corno, seu corno!

Não adiciones alguém chamado JOSÉ ALBERTO de Portugal, ele é um hacker, passa esta mensagem a todos os teus amigos, porque se algum amigo teu o adiciona ele vai conseguir adicionar-te também, ele consegue descobrir o teu ID do computador e o endereço, todos nós estamos em perigo, por isso não te esqueças, divulga, alerta, parasitas e ladrões já nos chegam, agora ainda mais este. Esta foi a atualização de status que as mãos de Casimiro digitaram, assim que pararam de tremer. As palavras vieram vomitadas, com fluidez nunca experimentada, nem nos momentos mais inspirados da redação da tese. Primeiro clicou no botão de publicar, o que lhe trouxe algum alívio, e só depois conseguiu reler o que escrevera, impressionado por não haver nenhum erro de digitação.

A internet é um mundo perigoso e incompreendido, regido por leis próprias, onde toda cautela é pouca, hackers têm poderes mágicos e a eles nada é impossível, era assustador imaginar-se na pele de uma triste vítima de furto de ID, convém fazer sua parte para o bem da coletividade, apoiando causas nobres e combatendo injustiças, principalmente quando para isso não se requer mais do que uns cliques, todos seriam gratos por ter amigo tão bem informado e prestativo, desgraças despertam interesse mórbido, falta de assunto, tédio. Estas são algumas débeis tentativas de explicar por que uma mensagem é tantas vezes replicada sem que a ninguém tenha ocorrido questionar sua veracidade, o fato é que boa parte dos noventa e sete amigos de Casimiro clicou em compartilhar, atitude repetida pelos amigos dos amigos, pelos amigos dos amigos dos amigos e assim por diante.

Então foi a vez de Casimiro Leal rir quando, já no dia seguinte, constatou que sua mentira tinha viajado o mundo e retornado. Recebia de volta sua própria mensagem (incluindo uma versão traduzida para o inglês), corroborada por comentários como Em que mundo estamos, ofereces amizade e em troca recebes uma punhalada nas costas, Bem feito, quem mandou adicionar estranhos, Onde estão as autoridades que nada fazem, Queremos justiça, cadeia para José Alberto, Há dias ele me assedia, mas não sou boba, Meu cunhado foi mais uma vítima desse crápula, Passou-me vírus, Apagou todos os arquivos do disco rígido, Quando dei por mim já não restava um centavo na conta bancária, Acordou dentro de uma banheira de gelo sem um dos rins. E foi a vez de Casimiro Leal gargalhar quando viu a página do Grupo de Josés Albertos de Portugal, que clamavam NÃO SOMOS HACKERS, em caixa alta porque gritavam.

Suposto hacker promove pânico em sítio de relacionamentos sociais, era o título de uma nota na coluna de tecnologia do Jornal de Notícias, mostrando que o caso já ganhara a mídia impressa. Mesmo assim, não se via menção ao assunto no mural de Maria Cândida, que parecia ignorar o perigo a que estava exposta, ou o perigo a que deveria acreditar estar exposta, especialmente ela que tinha um José Alberto na lista de amigos. Seu problema era confiar demais na pessoas, devia ler mais a imprensa séria para constatar a crueldade intrínseca da humanidade, eram as críticas que Casimiro costumava dirigir a ela.

Maria Cândida tinha, no entanto, deixado um comentário na atualização de status, a original, no mural de Casimiro: Até tu, professor?!?, significando que ela já cansava de deparar com o mesmo aviso em tantos murais e não esperava que alguém com a estatura intelectual de Casimiro Leal desse crédito a boatos como aquele. Só me limitei a divulgar o que outros me enviaram, até nem sabia o que era um hacker, na altura julguei que era algum talibã ou coisa parecida e fiquei assustado, este foi o comentário de Casimiro no próprio status, e só depois de clicar em publicar percebeu que havia um excesso de explicação incriminador. Então deletou e substituiu por Tu sabes que de internet eu sou o aprendiz e tu és a professora, mas achou que aquilo, além de piegas, expressava submissão, e apagou novamente. Então tentou Nunca se sabe, na dúvida mantenha distância de Josés Albertos, depois achou melhor remover a segunda parte e o que no fim publicou foi simplesmente Nunca se sabe. Seu tolinho <3, foi a resposta de Maria Cândida, indicando que enfim resolvera, e justo naquela ocasião, começar a desconfiar da humanidade. Quanto ao parêntese angular de abertura e o algarismo três que fechavam o comentário, só muito tempo depois do fim do relacionamento ele descobriu que era o código de um coração.

Casimiro ainda leria uma última menção ao caso antes que caísse em completo esquecimento, dois dias depois. És tu o hacker que está a roubar nossas IDs?, Maria Cândida publicara no mural de José Alberto. Dezoito pessoas curtiram aquilo, mas só uma havia comentado, o próprio José Alberto, que respondeu:

KkkKKKkkkKKkkKkKkkKkkKKkkkKk!!!!!!!!!!!!

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Comentários

Então tu é o responsável pelo descrédito do José Alberto? KkkkKkkkK!!!
Este parece ser o primeiro capítulo de um romance ! Dá vontade de saber qual será o desfecho desta descoberta. Continua pls!
Parabéns pelo texto e pelo premio!
Bk